A arte de

KITHI

"A arte de Kithi é nova, como ela. Usando nada mais que desenhos a lápis-de-cor sobre papel, ela vai criando seu Ser D’Água entre seres semelhantes e dessemelhantes, num gestual espontâneo que segue revelando a tendência particular do seu estilo. A linha é seu norte. Seguras e repetidas, elas dão corpo às ideias que vão surgindo, ao correr do lápis, apontando coisas que prosseguem, ou não, a depender do comando da artista. A firmeza dos seus traços e a exatidão do espaço mantido entre eles asseguram a qualidade do desenho de Kithi, que suas sugestivas formas enriquecem” Matilde Matos – Crítica de Arte e autora do livro Água: reflexos na Arte da Bahia

UMA POÉTICA DA ÁGUA NA RODA D'ÁGUA CINEMÁTICA DE KITH

Dante Galeffi

Vídeo demonstração da obra A Dança

Toda obra de arte se define por sua própria formatividade encarnada, o seu fazer que ao se fazer inventa o próprio modo de fazer, pois na arte o que importa é o êxito da obra em sua concretude própria e singular em sua forma formada. Toda obra de arte é sempre uma expressão encarnada em determinado limite de expressão. A artista multimídia Kithi escolheu expressar-se através do meio cinemático. Seu foco intencional é a água, e nada melhor do que a cinemática para torná-la presentificada em sua fluidez, plasticidade e escorrência incontornável. A obra de Kithi se faz como meditação com a água, em uma acoplagem intencional marcada pelo encantamento do simples, da temporalidade dilatada, uma pausa longa dos estados mentais acelerados e estressados. A meditação com a água se revela em sua propriedade poética uma Roda D'água apresentada em cinco movimentos de certa forma ascendentes, pois é como se correspondessem a cinco degraus de um movimento místico de iniciação no mistério instante e insondável da água. O quinto movimento é uma imagem síntese da totalidade da obra, Holograma. De certa forma, uma vivência de estados da água além de sua utilidade vital, também como metáfora da criação de mundos possíveis e do mundo que cada ser humano é em seu existir singular.

 

O título da intervenção projetada por Kithi, Roda D'Água, é condizente com a intenção de presentificar o elemento água mostrado em suas virtualidades poéticas, formando uma roda d'água imaginária cheia de surpresas e ângulos a serem acessados pelo fruidor interessado na vivência estética em si. A roda é da água e para a água, uma roda que em seu movimento compõe uma ciranda de momentos entrelaçados pela intenção de louvar a água como matriz de tudo. Sim, a água é mostrada em seu poder-ser mais próprio: a água da vida que doa vida. Uma água plasmadora de tudo o que vive e também alcança autocontemplação no êxtase que é o ser senciente em seu acontecimento instante e sempre outro. Um maravilhamento que imita o dinamismo da vida em sua criação contínua.

 

Mas, como a água sendo um elemento tão comum pode metamorfosear-se pelas mãos que a capturam em fotogramas sinestésicos inusitados? É quando a água se revela outra, surpreende em sua aparição. Uma mira e uma máquina de captura se tornam o campo da revelação de outros espectros da água, mostrando-a como espelho da grande guerra dos mundos de memória cósmica. A filmadora com sua precisão definida em sua marca de série não é nada sem a mira apropriadora da artista. É a mira que faz a diferença quando as novas próteses de ampliação do percepto humano disponibilizam em grande escala o poder do uso estético das imagens em seus diversos registros sensíveis.

 

A obra de arte-movimento de Kithi em sua forma formada e repetível em suas exposições possíveis oferece-se como encontro de um avanço da memória para o futuro do passado e do presente. Eis a Roda D'Água em seu movimento intencional surpreendente e recorrente. Tudo começa com A Batalha / Luta. Tudo tem início na luta de opostos. Uma guerra de formas primevas que evocam corpos protoplasmáticos em atrito e choque. A luta lembra a batalha da vida no meio líquido de sua origem matricial. A água tornando-se o meio de revelação da intencionalidade da artista. Afinal, tudo tem início com a grande explosão decorrente do encontro de polos energéticos distintos. Mas a figuração da luta de opostos é uma invenção da inteligência humana operante. E a própria vida em sua multiplicidade apresenta a luta como sua constituição própria. Pois tudo o que é vivo se alimenta do que é vivo. Entretanto, é o olhar da artista que permite seguir o vórtice da luta capturada em efusões cromáticas e inversões de figura e fundo. O inverso do padrão perceptivo estabelecido culturalmente surpreende o olhar do fruidor que se vê transpassado pelo que se mostra e desoculta. O desocultado segue abrindo-se para o inusitado encantador.

 

Vídeo demonstração da obra A Batalha

O encantamento, então se dá em seguida como A Dança. A água também dança e seu dançar forma preces e gestos de entidades estilizadas elegantes e leves como pluma. Recortes de formas que se entrelaçam em um ato de amor intransponível, inaugural do cosmos como relação de opostos complementares. O próprio movimento de tudo é um ato amoroso do encontro do diferente com o diferente, o entrelaçamento radical dos opostos e a transcendência da luta pelo alcance da harmonia mais bela. A própria dança reúne os diferentes em um âmbito comum e pertencente. Além da Batalha há também a dança dos opostos sem os quais nada seria como está sendo. Além da luta há o amor que a tudo reúne no mesmo sem-fundamento. Tudo, então, se transfigura em dança e dança em ato criador contínuo como água. A Dança produz a reunião das águas e o poder se presentifica em sua Densidade. 

 

Entramos no terceiro momento-movimento da ciranda rodada. A densidade da água é formada por suas precipitações abissais. Enquanto um simples filete de água em queda não tem o poder de produzir densidade, a reunião de águas formando amplos rios em queda abissal produz sua densidade mais visível. Nada se compara ao poder da água reunida e precipitando-se nas quedas bruscas que desenham as cachoeiras. Quanto maior a altura de uma queda d'água maior sua densidade geradora de energia potencial. O poder da água se faz pela reunião e multiplicação de seus átomos e moléculas singulares. A união faz a densidade que é força movente.

 

É quando a Densidade provoca a Meditação. O quarto momento-movimento da ciranda convida o fruidor a pousar o olhar no suave movimento da água de uma lagoa povoada de pequenos caniços dourados e esmaecidos que balançam lentamente ao sabor dos ventos e das correntes submersas. Os caniços retém detritos como se fossem filtros purificadores. A meditação se dá como parada do olhar diante de uma paisagem recortada pelas mãos da artista. Pois meditar significa pousar e deter-se como observador dos próprios pensamentos (afetos, perceptos, juízos, conceitos), até o alcance do não-pensar pleno: vazio-cheio. Mas a meditação também é sempre uma singularidade que se encontra imersa na totalidade. Uma singularidade como movimento de subjetivação contemplativa. Meditar é também contemplar na medida em que o contemplar é um divisar singular de momentos de totalidade. É quando o singular se faz plural em seu poder de multiplicação de si. A meditação afina o instrumento perceptivo clareando tudo. É quando a multiplicidade se encontra reunida e a unidade se faz como compreensão articuladora. Na meditação a unidade não encontra figuração possível. Não se trata mais de captura de imagem em seu fluo cinemático. Não é uma unidade passível de representação, pois toda representação cessa e toda projeção mental silencia para dar voz ao que ressoa do mais abrangente abismo: o salto de natureza entre um e outro silêncio.

 

Vídeo demonstração da obra Meditação

Do abissal Nada irrompe a Abundância. Acessamos o quinto momento-movimento da ciranda. A abundância desoculta o poder mais próprio da água. Na água toda a vida encontra o meio de seu nascimento. Como matriz da vida, a água é a imagem da Abundância. Mas, se tudo é abundância porque provém da água matriz, como mostrar a abundância em sua abundância? Entra a mira da artista para escolher o campo de visada da Abundância nomeada. A abundância se mostra como o poder da multiplicidade e da diferenciação. A Abundância dá origem ao variado mundo das infinitas possibilidades de abundância. A vida abundante se mostra em seu plano criador infinito. As singularidades da abundância são seus momentos abertos ao imprevisível e sempre novo ato criador múltiplo. Pois a abundância alcança todos os planos de imanência da vida em todas as suas formas em devir. A abundância é como a água em sua forma maleável e simples, sendo a imagem da mais sublime bondade, a tudo beneficiando sem preferência e permanecendo silente nos lugares desprezados. A abundância como a água assemelha-se ao caminho sábio.

Vídeo demonstração da obra Abundância (holografia)

Na Roda D'Água o fim é o princípio, pois tudo recomeça da água em ciclos intermináveis. Admirar a obra em seu aparecer e aparência é recordar-se da beleza renovada do viver instante e celebrar seu encantamento abissal admirável. Renascer na Luta, desenvolver-se na Dança, fortalecer-se na Densidade, repousar na Contemplação, confluir na Abundância, recomeçar e findar na Roda D'Água. Na Roda D'Água o fim é o princípio, pois tudo recomeça da água em ciclos intermináveis. Admirar a obra em seu aparecer e aparência é recordar-se da beleza renovada do viver instante e celebrar seu encantamento abissal admirável. Renascer na Luta, desenvolver-se na Dança, fortalecer-se na Densidade, repousar na Contemplação, confluir na Abundância, recomeçar e findar na Roda D'Água.

Fire Water

Vídeo demonstração da obra Fire Water

Vídeo de pintura em movimento feito para o trabalho colaborativo com Matt Sheridam para apresentação no frontal da Igreja de Santana.

 

Kithi + Sheridan 

 

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