Lagoa do Abaeté

Salvaguarda da cultura de Itapuã 

 KITHI

A Viradouro ganhou o primeiro lugar entre as melhores escolas de samba do carnaval do Rio de Janeiro. Mais uma vez a Lagoa do Abaeté e as tradições do povo que vive a sua margem é inspiração para as grandes obras.

O espirito do Abaeté, cuja tradução do tupi é " homem de verdade", invade o mundo com beleza, alegria e celebração a vida.

Arrasou em tudo, principalmente no tema: o samba enredo "De Alma Lavada" é inspirado no grupo Ganhadeiras de Itapuã.

Grupo de mulheres que contam a história de si e de suas antepassadas através de apresentações musicais de samba-de-roda.

Elas ganhavam a vida lavando roupa na beira da Lagoa do Abaeté e vendendo quitutes em vários locais da cidade.

A Lagoa do Abaeté, que já esteve entre os principais pontos turísticos de Salvador, é aquela "lagoa escura arrodeada de areia branca" cantada por Dorival Caymmi e que hoje está abandonada, "sentindo a falta das lavadeiras" como diz D. Mariinha, Presidente do grupo As Ganhadeiras de Itapuã.

 

As lavadeiras foram retiradas da beira da lagoa, na década de 90, para evitar a poluição.

Aliás, a Lagoa do Abaeté é mesmo arrodeada de tradições e de vida natural que junto com o mar são referenciais na construção do imaginário simbólico da cultura e da memória do bairro de Itapuã, logo da própria cidade.

Itapuã ainda é um celeiro da produção cultural da Bahia, aquela que nasce da resistência de um povo que tem a ancestralidade como direção, como caminho e como razão de viver.

Itapuã foi e é inspiração para muitos artistas das mais variadas linguagens. Poetas, músicos, artistas visuais, bordadeiras, escultores, fotógrafos, atores...

A Viradouro se encanta com cultura de Itapuã, se rende a força das histórias em torno da Lagoa do Abaeté e ganha o campeonato das principais escolas de samba do Rio de Janeiro.

Veja no vídeo acima entrevistas com "As ganhadeiras de Itapuã" e o desfile da CAMPEÃ.

Um museu é “ o espelho onde a população se mira para reconhecer-se, espelho que o povo oferece a seus hóspedes para que eles o conheçam melhor, no respeito por seu trabalho, por seu comportamento, por sua intimidade".  (George Riviere)

Calasans Neto, Vinícius de Moraes, Pierre Verger, José Pancetti, Amadeu Alves, Caetano Veloso, Seu Regi, Raquel Amorim, As Ganhadeiras de Itapuã... são tantos 

Itapuã ainda é um lugar do povo.

 

Lugar de pesca e de pescador. É a única área de Salvador, fora da Baía de Todos os Santos, que os pescadores ainda vivem próximo ao mar e cultuam aquele velho jeito de ser baiano que propagou a Bahia turisticamente para os quatro cantos do mundo.

Itapuã é lugar de chamego, de samba, de gente com raízes africanas e indígenas visíveis na cor da pele, na expressão artística, na força e na coragem de viverem e manterem o seu modo de vida.

A compreensão e preservação da memória desse bairro passa diretamente pela relação que a população local tem com a Lagoa do Abaeté, com as dunas e com o mar. 

Conheça um pouco da pesca artesanal de Itapuã.

A Lagoa do Abaeté é um lugar único.

É um museu vivo. É inspiração para a cultura imaterial e material local. É inspiração para artistas de todo o mundo

Lagoa do Abaeté, o museu aberto de Salvador

O único ecossistema de lagos, dunas e vegetação de restinga,

ainda preservado no Brasil, dentro do espaço urbano, vale ouro 

A Lagoa do Abaeté é um espaço natural, dentro de uma grande cidade, com características ambientais e culturais que a torna única no mundo: só existe em Salvador.

As suas águas, plantas e dunas são os "remédios" para o corpo físico, para o corpo emocional e para o corpo espiritual do povo de Itapuã e para todos, que de alguma forma, tem uma ligação com a ancestralidade local.

Até mesmo para aqueles que só aparecem para uma visitinha, ela conquista.

 

Dela é colhido o balsamo que alivia as dores das batalhas diárias e faz crer em um amanhã mais justo e mais digno do nome que nos autodenominamos: ser humano.

O Abaeté é a alma da eterna inspiração baiana. É o lugar do Criador e daquele que cria. É a semente da memória onde é colhido os frutos do conhecimento presente e é viabilizado o futuro desejado.  

E o desejo dos Itapuanzeiros é a salvaguarda do seu patrimônio, que pertence a todos os cidadãos da Bahia, do Brasil... Aliás, a Lagoa do Abaeté pertence mesmo é ao mundo. 

A historiadora Tânia Gandon, autora do livro "A Voz de Itapuã", que reúne pesquisa oral e documental detalhada, feita na década de 80, com a comunidade de Itapuã, fala da importância das lagoas, da lagoa do Abaeté e do mar para a memória dos itapuanzeiros. Ainda define os vários tipos de memória apontando a importância dela para o ser humano.

E quem pode ganhar com a Lagoa? Todos. A gente do lugar, os visitantes, os governos, os empresários...

Imagine ser este local um museu a céu aberto com obras de todos os artistas que por ali passaram, com músicas espalhadas em forma de instalações artística, com trilhas ambientais, com fogueiras ecológicas para passar a noite e amanhecer o dia vendo o sol nascer sob as dunas, depois um bom banho de lagoa e de quebra as tradições de Itapuã?

 

Entender o que é e como se faz um presente para Oxum, ouvir as lendas do lugar, conversar com a gente praeira, participar de uma roda de samba, aprender a sambar, aprender a tocar... conhecer a história.

Ver o lagarto abaetense, espécie que só existe nesse lugar, as orquídeas, as corujas buraqueiras... a diversidade da vida animal e vegetal encontrada na Área de Proteção Ambiental  (APA) Lagoa e Dunas do Abaeté. 

O patrimônio coletivo – guardião da  memória de um povo – é concebido com a constatação da existência de um sentimento de pertencimento e de identificação com um espaço geográfico, um bem.

Fotos: Parque das Dunas

E se ainda colocássemos no pacote saídas nas canoas pelo mar afora? Vivenciar a pesca artesanal, jogar a rede e pescar, seria trazer para si o que o poeta já cantou.

Isso tudo aliado a diversidade de festas populares que tem no bairro, nosso principal atrativo turístico,  já pensou?

Além disto tudo o lugar ainda possibilita uma vastidão de elementos interessantes para a criação de conteúdo: filmes, séries, novelas, trilhas e clips musicais, documentários... encontro de culturas...

Será isto um devaneio do período de quarentena? Acredito que não.

 

Abaixo estão alguns números do ano de 2014 do Inhotim, o maior museu a céu aberto do mundo que fica em Brumadinho, Minas Gerais. A Bahia tem tudo para fazer mais.

Fotos publicadas com #inhotim no Instagram. 

Pessoas atendidas desde o início do projeto.

Alunos e professores atendidos em 2014. 

Retorno de Mídia

Visitantes desde a abertura do parque, em 2006.

Fonte: Relatório 2014 do Inhotim.

A cultura baiana é insumo e inspiração para a concretização de produções artísticas das mais variadas linguagens de expressão, atingindo artistas do mundo inteiro.

Michael Jackson, Paul Simon, Julio Iglesias, Vinícius de Moraes, Matt Sheridan, Anselmo Duarte, Anita...

O patrimônio cultural dos baianos ainda é forte e grandioso por conta de uma gente que respeita e celebra a sua ancestralidade ao mesmo tempo que luta ardentemente para manter os lugares sagrados, como a Lagoa do Abaeté.

 

Mas o saber dessa gente que traz infinitas riquezas e vitórias para a Bahia precisa da ajuda de todos, principalmente dos governantes, para que as tradições, raiz de toda prosperidade, continue a existir em Itapuã e em todo Estado.

A base de todos os produtos culturais que geram abundância para o Estado estão fincados na tradição popular.

 

O carnaval, o São João, a baiana de acarajé, a capoeira, a comida tradicional, as cantigas que enaltece a terra e falam dos afazeres da comunidade...

A cultura é um ativo econômico fundamental para geração de riqueza de um país, é o insumo mais potente da nova era.

 

A Bahia sabe e utiliza desse potencial há muito tempo como nenhum outro lugar do Brasil, ou seja, já estamos na frente, só é alinhar para as novas formas de produção.

"As batalhas da economia serão travadas no campo da cultura"

Jack Lang 

Prof. Dr. Paulo Miguez, Vice-Reitor da Universidade Federal da Bahia - UFBA, fala da importância do simbólico para geração de riqueza nas próximas décadas. 

A nova ordem mundial dirige o setor produtivo para a economia criativa, que permite unir sustentabilidade, inclusão social, inovação e diversidade cultural, a maior riqueza brasileira.

Além de ser uma área de interesse turístico e de toda base cultural, que é relevante para a economia da cidade, a APA Lagoas e dunas do Abaeté é considerada uma área de interesse nacional também pelo valor educativo, conforme o gráfico da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), que também aponta para um alto risco de degradação.

Fonte: Geossit Cadastro de Sítios Geológicos 

Assim o local pode agregar diversos tipos de público, com interesses variados: ecologia, arte, música, tradição popular, curiosos...

Zelando do lugar e com técnicos capazes de aliar preservação sustentabilidade e cultura, tudo é possível.

Algumas das tradições de Itapuã realizadas com muito esforço por uma gente que honra sua ancestralidade, o seu saber, a sua tradição. Muitas vezes, para conseguirem realizar as festas guardam economias durante todo o ano,

Economia criativa

A economia criativa, também chamada de industria criativa ou ainda indústria do entretenimento, há uma discussão em torno do tema,  atua tanto em ambientes virtuais quanto aqueles ambientes que as pessoas estão presentes fisicamente. Em ambos os casos o insumo é o conhecimento.

A maioria das pessoas que circulam no mundo virtual ou fisicamente presente querem conhecer a história, o saber ou experimentar as práticas diárias dos diversos modos de vida.

 

Querem viver e conhecer o outro. Experimentar o novo, o inusitado.

 

Como fazer determinada comida, como são as práticas espirituais, como são as festas, quais são as tradições, como são as danças, como são feitas as construções, como se veste, como é a arte, a música, o teatro e hoje querem saber até quem faz determinado artesanato ou doce, por exemplo.

 

Tudo isto é conhecimento.

 

Na nova ordem mundial de consumo todos os saberes são importantes e geram lucro, aliás, quanto mais próximo da cultura local tiver o saber, mais valioso ele se torna.

As pessoas querem produzir coisas novas, mas é preciso entender que o novo está fincado na semente do antigo.

Para se construir conteúdo virtual, o elemento "não-virtual" é tão importante quanto a base tecnológica para fazê-lo. É o insumo. É o fator que alavanca a potencialidade criativa e faz gerar novas leituras e formas de representar o mundo apreendido.

 

Para as pessoas que são da Inglaterra, por exemplo, é extremamente diferente ver o povo de Santo colocar um presente para Oxum numa lagoa arrodeada de areia branca, ou um presente para Iemanjá que acaba em samba-de-roda na beira do mar azul onde pode mergulhar, ou ainda comer um acarajé ou sair para a atividade de pesca artesanal na Bahia.

A lagoa e o mar estão ligados, assim como o acarajé.

 

Vejam quantas pessoas vão a Israel ou para Itália para conhecer os templos antigos, a história, a cultura que atrai? 

A diferença que custa a entender é que os templos sagrados, para os indígenas e para os afrodescendentes,  são os ambientes naturais, longe de ser um construção.

 

Para essa gente a natureza é o lugar da reverência e de oração a Deus.

 

A lagoa do Abaeté é um Templo Sagrado.

 

Se por ventura for retirado do povo da Bahia o seu bem mais precioso, a cultura e os espaços sagrados, Salvador vai ficar igual a qualquer outro lugar a beira mar.

 

A magia dessa cidade que atrai milhões de turistas, inclusive aqueles que escolhem o estado para realizar eventos corporativos, está na força, na beleza e no sabor da cultura popular, donde brota todo o esplendor das iguarias, das músicas, das danças, da arte... está no esplendor da vida.

 

De 2004 a 20015 o PIB criativo , ou seja, a soma em dinheiro de todos os bens de serviços criativos do Brasil, gerou 155,6 bilhões de reais, o que representa a participação de 2,64% no PIB brasileiro.

De 2004 a 2017 o PIB criativo foi de 171,5 bilhões de reais. Apesar do valor ser maior, aqui estão contabilizados dois anos a mais do que o gráfico anterior. Na verdade teve uma leve redução de desempenho, que vinha crescendo até 2015.

A Bahia, no gráfico de participação dos Estados no PIB criativo brasileiro reduziu a participação de 1,1% em 2015 para 1% em 2017 e ocupa 22º lugar da produção, abaixo de Sergipe, Pernambuco, Ceará...

Fonte: Mapeamento da Economia Criativa - FERJAN

A pesquisa avalia 13 segmentos criativos agrupados em quatro áreas: Consumo (Design, Arquitetura, Moda e Publicidade), Mídias (Editorial e Audiovisual), Cultura (Patrimônio e Artes, Música, Artes Cênicas e Expressões Culturais) e Tecnologia (P&D, Biotecnologia e TIC).

REVISTA ASSUM PRETO

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