GANHADEIRAS DE ITAPUÃ, A TRAJETÓRIA ATÉ A VIRADOURO

Kithi

A trajetória das Ganhadeiras de Itapuã conta a história de um povo que valoriza a própria tradição. O reconhecimento e vitória da Viradoro alimenta a importância da união entre Rio e Bahia para o legado da diaspora africana. 

Junto a lagoa do Abaeté está o palco principal da vida das Ganhadeiras de Itapuã.

 

No passado, enquanto lavavam roupas de ganho para pagar sua alforria ou daqueles que amavam, cantarolavam e conversavam.

A música e o samba sempre foram os alimentos para alegrar a vida, saudar os antepassados e fortalecer a alma para aguentar o peso da vida de ininterrupto labor.

Enquanto a roupa quarava – significa colocar as roupas ao sol, ainda ensaboada para melhor limpar - elas desfrutavam do espaço circundante.

Os frutos frescos das árvores, o papo com as amigas, o local para suas crianças brincarem, as ervas que lhes serviam de remédios e a proteção Divina... tudo estava ali naquela lagoa escura arrodeada de areia branca.

Um universo feminino com as bênçãos de Oxum era construído. Uma vida simples, de muita labuta, mas digna, solidária e alegre.

Além de lavar roupa vendiam quitutes no centro da cidade de Salvador, principalmente o peixe frito, que eram levados em cestos e forrados com toalhas brancas que de tão alvas pareciam azuladas.

 

As primeiras ganhadeiras iam caminhando de Itapuã para o Mercado de São Miguel, no centro da cidade, mais de 20km. Não havia transporte. Cresceram nesse movimento, determinadas a serem livres.

Amadeu Alves, “itapuanzeiro”, hoje diretor da Casa da Música e amante da cultura de seu povo, viu o potencial dessas senhoras que subiam e desciam as ruas de Itapuã a movimentar com seu trabalho e canto toda a gente do bairro e logo pensou em criar um grupo que apresentasse essas mulheres, seus afazeres e canções que se perdiam no novo tempo das mudanças rápidas da contemporaneidade.

Ser “itapuanzeiro” é ter nascido e se criado dentro da cultura de Itapuã. Alguns, por sua participação efetiva no contexto cultural podem ser considerados do lugar, mas não é fácil ganhar esse título.

Era final de 2003 quando Amadeu conversou com D. Denize e D. Ana Maria para por em ação a ideia que tivera: criar um grupo cultural com as mulheres de Itapuã. Daí em diante foi juntando gente e no dia 13 de março de 2004 firmaram compromisso de fundação do grupo.

 

Nasceu As Ganhadeiras de Itapuã.

Na casa de D. Mariinha eram realizadas as reuniões para ensaio e seleção do repertório que partia da memória afetiva delas. Uma das canções selecionadas, de mesmo nome, batizou o grupo de Ganhadeiras de Itapuã.

Utilizando o trabalho coletivo como forma de condução das atividades, as pessoas foram chegando com o tempo: Salvino Filho, Jenner Salgado, Edvaldo Borges, Ivana Muzenza, Alê Siqueira... e as crianças e adolescentes foram se interessando e participando do contexto de forma espontânea.

Hoje são as ganhadeiras mais novas que já trazem suas filhas para roda, ou seja, o movimento já atinge três gerações.

Os shows começaram em Itapuã e aos poucos foi ganhando espaço fora do bairro. Uma construção valiosa de persistência, coragem, companheirismo e crença.

Como o primeiro prêmio ganho no Concurso Público “Prêmio Culturas Populares 2007”, da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, as Ganhadeiras de Itapuã compraram adereços e instrumentos musicais.

Em 2012 gravaram o primeiro CD utilizando o Fundo de Apoio a Cultura, programa do Governo do Estado da Bahia, que abriu as portas para as próximas premiação que as levaram ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro para participarem da 26ª edição do Prêmio da Música Brasileira em2 015 como ganhadoras das categorias “MelhorÁlbumRegional” e o “MelhorGrupo”.

Participaram do encerramento da Olimpíada no Rio em 2016, ganharam o prêmio Natura para realização de um documentário que ainda será lançado, mas foi há quatro anos, num show em Salvador, com a participação de Zezé Mota, que as ganhadeiras alcançaram os carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon.

Zezé Mota entregou o CD para eles e disse: “as Ganhadeiras de Itapuã é um bom tema de samba-enredo”.

Ganhadeiras de Itapuã na casa da Musica e Abaeté - 2017

O RIO DE JANEIRO VAI A BAHIA

De posse do CD e da informação a equipe de diretores mais os carnavalescos foram a Bahia conhecer a história de vida dessas mulheres, uma-a-uma, e nelas encontraram o que há de melhor na Bahia: a cultura herdada dos antepassados que alia o afazer diário com a fé que movimenta montanhas.

Conheceram a Lagoa do Abaeté e seus mitos. O mar baiano e seus encantos. A fé das mulheres alimentada pelas contas dos Santos africanos e pelo crucifixo da Igreja Católica.

A Oxum e a Iemanjá que protegem a água doce, a água salgada e todos os seus filhos que tiram destes ambientes o sustento da vida.

Além do conhecimento adquirido, o contato direto com as ganhadeiras, alimentou a própria fé dos carnavalescos, visível no terço presente nas mãos de Marcus, durante entrevista para o G1 em 26 de fevereiro. A mesma fé que põe para frente as Ganhadeiras de Itapuã, com a mesma simplicidade que a sabedoria adquirida com a vida lhes permitiram, levou os carnavalesco a cantarem juntos a mesma canção:

“Ó, mãe! Ensaboa, mãe! Ensaboa, pra depois quarar

Ó, mãe! Ensaboa, mãe! Ensaboa, pra depois quarar”

E juntos, a Bahia e o Rio de Janeiro, lugares da mesma diáspora africana, ganharem na Sapucaí.

REVISTA ASSUM PRETO

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