Foto de Kithi

MULHERES MALÊS NAS MARGENS DO RIO

Texto e fotos Kithi

O momento histórico representado na peça Mulheres Malês nas Margens do Rio, com texto e direção de Heme Costa, é o Levante do rio Joanes.

O Levante foi um sangrento combate ocorrido no dia 28 de fevereiro de 1814, em Santo Amaro de Ipitanga, atual município de Lauro de Freitas, na Bahia. Movimento precursor da Revolta dos Malês em 1835.

O objetivo: a liberdade da escravidão que eram submetidos.

O espetáculo traz como protagonistas as mulheres que fizeram parte desse processo: Ludovina, Tereza, Germana e Francisca.

A montagem se passa na noite anterior ao Levante. Trazendo para o palco os medos, as dúvidas e as inquietudes que antecederam a sangrenta batalha, mas principalmente, atestando a presença das mulheres no combate, memória ancestral esquecida na maioria dos livros que contam a história do estado.

O que a princípio parecia ser um espetáculo com repertório comum ao gênero, ganhou outra dimensão quando a fala saiu do coletivo para o individual.

Com o fluir do texto conduzido pela trilha sonora de Liz Novais que intercala as falas ou dirige a ação, junto com a alternância de personagens aguerridos e doces na expressão, o espetáculo proporciona ao público uma leveza para o tema pelo justo equilíbrio entre tensão e relaxamento.

Para cada personagem a representação do seu interior emocional naquele momento que antecede a luta. Elas estão em si e para si a manifestação expressa do seu eu mais profundo que compõe uma mesma mulher, inteira.

Com as devidas proporções, as mesmas lutas internas travadas por nós, mulheres de hoje.

As senzalas, para além da construção de pedra e cal, ainda existem nas ações machistas, racistas e sexistas, da sociedade contemporânea.

A invisibilidade nas trincheiras de trabalho e ação, seja de casa ou seja da rua, ainda é um movimento natural da vida cotidiana.

Somos feitas de luta!

A cada mulher que se apresentava o meu retrato estava exposto como se fosse arrancada as parcelas dos meus dias, realidade de muitas de nós.

A força do facão na cintura, o diálogo insano com a criança no centro da batalha, a doçura da fé inabalável e condutora da confiança necessária a ação, a coragem para se atirar ao mar em busca da baleia... tudo parte de um mesmo contexto, tudo é ontem e hoje.

Impressionante a capacidade de conectar dois mundos, temporalmente distante, mas tão próximos. Aí reside a magia desse espetáculo.

O cenário simples ganha amplidão com a iluminação de Ely Batista e a presença de todos os personagens em cena que contextualizam o ambiente com movimentos sutis. Aliás, a peça é feita de sutilezas.

O elenco, perfeito. Cada uma trouxe o que era exato para o todo, e o único homem, toca seu tambor assistindo a tudo, atento para a sua hora de entrar em cena, como fazem aqueles que ouvem as sábias mulheres, antes da batalha.

A performance das quatro personagens principais chama a atenção pela desenvoltura, habilidade e transformação em cena.

A maestria com a utilização do facão que faz correr faísca da pedra, a força da expressão facial, a energia da dança, a transformação de Verônica Amorim na guerreira Teresa, destemida e de olhar assustador, é o ponto alto da peça. O próprio Ogum, Orixá da guerra, transvestido. Assombroso!

Ludovina, a mulher que conversa com sua criança, num misto de lucidez e loucura, num estado de ‘sem saber o que fazer’ é traduzida pela interpretação de Ana Cláudia Vitória, a própria loucura expressa de uma mãe aflita. Um show à parte.

Germana, interpretada por Mila Ribeiro, busca no canto e na prece a sustentação para transformar a doçura na força necessária a luta. Um balé para a Mãe D’água que acalanta e protege seus filhos.

E Kalu Santana, que interpreta a coragem de Francisca com seu arpão enfrentando mares em busca das baleias, traduzindo com perfeição a hora exata de atirar a flecha certeira que mata o inimigo que sustenta a escravidão.   

 

O sucesso desse espetáculo reside na representação lúdica, sensível e lúcida das emoções e qualidades do ser mulher.

Indicado ao Prêmio Braskem de Teatro, na categoria Espetáculo do Interior, a ficha técnica é:

Texto e Direção: Heme Costa

Iluminação: Ely Batista

Trilha Sonora: Liz Novais

Produção: Cristiane Santana e Fernanda Anjos

Elenco: Verônica Amorim, Ana Cláudia Vitória, Mila Ribeiro, Kalú Santana, Paula Lima, Liz Novais e Valesca Barreto.

REVISTA ASSUM PRETO

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