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SANTO ANTÔNIO, O FESTEIRO


Hoje é o último dia para celebrar Antônio Santo, o "santo mais festeiro que existe", como diz o padre Ronaldo Magalhães.


Quantas lembranças boas tenho desse momento. Quanta saudade da casa do meu avô e de toda aquela movimentação de celebração e alegria.


Lá em Muritiba, no Recôncavo da Bahia, onde vivi minha infância e adolescência, Antônio Santo era celebrado na casa do meu avô. O dia 13 era o dia da festa maior. O preparativo era um barulho só, com fartura de tudo: de gente, de comida, de alegria, de fogos, de fogueira, de vida para sentir.


Fazer essa festa era uma trabalheira sem fim, mas nenhuma pessoa reclamava. Contávamos com a ajuda de todos da família e dos vizinhos, independente da idade. E só se via os gritos: "Fulano vai quebrar as espigas de milho", "papai tem que tirar o amendoim para cozinhar", "Edson tem que cortar e colar as bandeirolas", "e a cana quem vai tirar? É preciso colocar o papel crepom vermelho nas pontas para fazer a fogueira do centro da mesa." "As flores de papel para enfeitar, já estão prontas? Precisamos enfeitar o altar"...


Naquele quintal de 16 mil metros quadrados o que se plantava dava, e meu avô era um cabra que adorava ver a terra plantada. Tinha de um tudo. E no meio do ano era tempo de fartura. Tempo de chuva. Tempo de celebração da colheita. A mesa era farta e as portas abertas para quem quisesse chegar, orar, comer, brindar e festejar.


As orações começavam no dia 1 de junho. Além da oração, esses dias eram também dias de preparação para a grande festa no dia 13 de junho, dia do falecimento de Santo Antônio. Na Igreja católica quase todas as celebrações dos Santo é no dia em que ele nasce para a vida eterna, logo o dia que ele se despede da vida terrena.


Chegou a tão esperada noite e tudo começava com a oração que era cantada. Quando chegava a hora do incenso lá vinha meu avô desfilando e defumando toda a casa até chegar aos pés de Santo Antônio. Após incensar o santo a fumaça ia passando de pessoa em pessoa para que todas as energias fossem purificadas naquele momento. Finalizando a reza chegava o momento dos festejos.


A fogueira era gigante, os fogos iluminavam o terreiro, o forró tocava na vitrola, a casa era toda enfeitada de bandeirolas, naquele tempo ainda soltávamos balão e para comer tinha milho, lelê, canjica, amendoim, queijo de cuia (queijo tipo reino), cana, mungunzá, pamonha, bolo de milho, bolo de aipim, bolo de carimã... e para beber licor de jenipapo e de maracujá. Naquela época, década de 1980 e 1990, ainda não se fazia licor de tudo que era fruta, como hoje.


Eitha Antônio amado.


Hoje, morando em Salvador, frequento as rezas de Santo Antônio na casa das pessoas e na igreja, outro local onde a devoção é realizada. Aqui, é comum a comunidade do entorno da Igreja de Santo Antônio, no centro histórico, se unir para para organizar a festa.



Mas em qualquer lugar a trezena começa pela decoração. Cada qual enfeitando seu espaço de devoção, casa ou igreja.


Nas casas os enfeites estão conectados com a festa junina. São bandeirolas, flores de papel, fitas... um colorido sem fim. Nas igrejas Antônio Santo é ornado com flores naturais no altar e no andor que leva a imagem a desfilar pelas ruas da cidade em procissão.


Toda casa, para quem é devoto, tem um dia de oração e, assim, vira uma romaria de fé, de amor e de devoção ao santo guerreiro pela história e casamenteiro pela direção popular.


Antônio viveu no período em que o cristianismo assumiu o caráter guerreiro e de conquista, mas somente nas cerimônias especiais é que Santo Antônio recebe sua patente militar. Santo Antônio é o padroeiro das forças armadas.


Apesar de ser um santo católico, na Bahia, ele é também adorado pelas pessoas do candomblé, que no passado, por conta do estado de escravidão, tiveram que associar suas divindades aos santos católicos.


Por conta da situação imposta que levava a coexistência de diversas crenças, a fusão entre santos e orixás foi imprescindível para a manutenção da fé naquele tempo de tortura e dor, assim Santo Antônio foi associado a Divindade Ogum, Deus da Guerra.


E mesmo sabendo que são Divindades únicas em suas devidas regiões, o povo de santo aprendeu a amar, a respeitar e a cultuar ambos e, coincidência ou não, Ogum é um dos orixás de mais prestígio no candomblé e Santo Antônio, um dos santos que mais reúne devotos na Bahia.


Mas fiquem atentos que Ana, rezadeira de Santo Antônio, diz: “Antônio não dá casamento, Antônio dá macho. Quem dá casamento é São José”.


Que Santo Antônio proteja a todos hoje e sempre.


Ogunhê!





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