By Kithi 

Vaqueiros do Raso da Catarina  

Rui Rezende

Foto da foto de Rui Rezende exposta no Shopping da Bahia

26 de maio de 2019 

A foto expressa a corrida para encontrar a rês no meio da caatinga. Essa é a labuta de todos que necessitam soltar os animais para buscarem alimento: na seca do sertão é assim.

Rui Rezende revela, no livro de fotografias Vaqueiros do Raso da Catarina, a lida diária de parte deste povo da caatinga do Nordeste brasileiro. O texto de Cícero Félix, jornalista convidado pelo fotógrafo para participar do projeto, dialoga com as imagens em plena harmonia. O resultado é uma obra de caráter etnográfico minuciosamente trabalhada.

 

A composição exata das imagens, com a memória das palavras dos pastores de gado, traduz com maestria o universo dos vaqueiros do Raso da Catarina: um espaço geográfico, com características ambientais únicas no mundo, e com uma cultura tradicional que existe desde o tempo da colonização da área, no século XVII. Transformada em estação ecológica, convive com o confronto da preservação ambiental, da permanência e da sobrevivência das espécies e da cultura.

Cuidar do gado é o ofício do vaqueiro, porém ser vaqueiro no sertão é mais que uma profissão. É destino. Para eles a "lida" é um ritual sagrado que faz parte do seu sangue. É uma relação de simbiose com os animais, com a caatinga, com a água e com o Divino. 

"Desde que nasce o vaqueiro é menino véi. Com cinco anos prende vaca, bezerro, munta em cavalo, joga a corda, encara o bicho. É inspirado no sangue, carregado de sei que de paz que corre numa linha sem desvio, é vaqueiro de natureza!" Assim diz o texto de Cícero Felix.

"Num tem bem valioso mais valioso pra vida que água. Amém".

Texto e imagem retirada do livro Vaqueiros do Raso da Catarina

A Chegada de Rui Rezende na Região

Rui Rezende chegou ao Raso da Catarina, há quatro anos, com o intuito de fazer algumas fotos da região para um cliente. Chegando ao local, ele se deparou com um acampamento de vaqueiros com trinta e três pessoas. Rui ficou fascinado de imediato, mas a reação dos vaqueiros foi de cautela; eles pensaram que Rui era fiscal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Ouça Rui contando a história no vídeo abaixo.

Foto das obras expostas no Shopping da Bahia

Rui encontrava com vários vaqueiros pelo caminho enquanto realizava o trabalho contratado. Ele fazia fotos e conversava sobre a vontade de acompanhá-los numa investida pela caatinga. Pegou o número de telefone de alguns deles e prometeu voltar com brevidade para mostrar as fotos impressas, o resultado da sua investida. A devolutiva para a comunidade sempre acompanhou os projetos do fotógrafo. 

Mas, um acidente aéreo o pôs de resguardo e tratamento por um ano. Era preciso recuperar a saúde do corpo para continuar fotografando. 

 

Com a disposição física recuperada Rui volta ao sertão, encontra com os vaqueiros e na conversa decidiu realizar o livro. A partir daí foram onze visitas de imersão total no dia-a-dia dos pastores de gado. Rui vestia as roupas de couro, montava calo, comia a mesma comida e bebia da mesma água. Estavam juntos compartilhando a vida. 

Do primeiro momento até a finalização do livro passaram quatro anos.

 

Para conferir detalhes dessa investida veja o vídeo no YouTube. É só clicar na foto abaixo. 

Foto retirada de imagens do vídeo

Os vaqueiros e a importância histórica dos registros de Rui Rezende

A pesquisa e os registros fotográficos de Rui Rezende junto com o parceiro convidado, o jornalista Cícero Félix, captura de forma única a lida com o gado no Raso da Catarina e tudo que compõem este cenário, desde fragmentos do ambiente até a linguagem oral. Um trabalho minucioso de registro da memória de uma tradição cujo destino é incerto. Veja abaixo algumas passagens do livro.

"Não se vê tristeza nas caras sofridas e riscadas com garranchos do tempo. Parece até que a bruteza das mãos duras como cascas de pedras se ri de tudo e esquece de ser bruta".

Foto do livro

A cultura material e a utilidade de cada item utilizado pelos vaqueiros na lida com o gado é identificada em forma de glossário.

Foto do livro

​"Medo? De quê? Proteção de todos os lados, dos cantos e recantos da alma. Nossa fé de proteção num cabe nesse Raso, mas enche o coração de Catarina. Cada fita é uma graça, uma cor lá dentro da gente, com alegria do riso da boca da vida"

Foto do livro (encontro de duas páginas)

O nome Catarina, dado ao local, é uma homenagem a uma mulher, fazendeira, que viveu no local e lutou até o estágio de loucura e morte para vencer a seca. Os vaqueiros acreditam que o espírito de Catarina os ajudam a encontrar a rês perdida em meio a caatinga. O nome Raso é por conta da vegetação rasteira e o relevo predominantemente plano.

 A Estação Ecológica Raso da Catarina

O  Raso da Catarina é uma Estação Ecológica que compreende uma área de 99.772 hectares  e fica entre os municípios baianos de  Canudos, Rodelas , Jeremoabo, Glória, Macururé, Paulo Afonso e Santa Brígida. 

Estação Ecológica é uma área reservada para a proteção ambiental integral, cujo objetivo é a proteção da natureza e a realização de pesquisas científicas. 

Com temperaturas chegando a 40ºC de dia e 15ªC a noite e rios que desaparecem completamente no período de estiagem, exceto o rio Vaza-Barris que resiste mais bravamente e forma o açude de Cocorobó, a seca é lugar comum no Raso da Catarina. 

A caatinga é o bioma local e a vegetação é composta, dentre outras espécies,  de mandacarus, xique-xiques, coroas-de-frade, diversos tipos de bromélias, palmeiras de licuri e árvores como o pereiro, a jurema, o juazeiro, o umbuzeiro, o jatobá...

A caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro. O Raso da Catarina é único no mundo.

Foto do livro de Rui Rezende

Estudos científicos apontam para  uma grande variedade de plantas nativas com valor medicinal e econômico que estão ameaçadas de extinção, conforme o Plano de Manejo: Estação Ecológica Raso da Catarina, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis.

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Click na foto para acessar o plano de manejo.

Além das plantas, o sul do Raso da Catarina é o local onde arara-azul-de-lear, ave ameaçada de extinção, exclusiva da caatinga baiana, se reproduz. Os paredões de arenito da Serra Branca e da Toca Velha, nos municípios de Canudos e Jeremoabo, são os berços da espécie.  Em busca do alimento, côco da palmeira de licuri,  elas voam até 60 km. É comum vê-las retornando para os paredões em bandos vindos de várias direções.  

Área 5 - Raso da Catarina

Fonte: Plano de manejo: Estação Ecológica Raso da Catarina, Maria Luiza Nogueira Paes,  Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

Foto do livro de Rui Rezende

Historicamente, como em toda área brasileira, a região do Raso da Catarina era povoadas por índios. Ainda vivem remanescente no entorno da Estação Ecológica Raso da Catarina. Os Pankararé estão mais próximos, vivem no norte da reserva, na zona de amortecimento, área de transição entre o espaço de reserva ambiental e demais localidades. Um pouco mais distantes estão os Tuxá em Rodelas, os Kaimbé em Euclides da Cunha e os Kiriri em Mirandela, próximo de Ribeira do Pombal. 

 

Na expansão colonialista do século XVII, os portugueses partiram rumo ao sertão em busca de terras para criar gado. Rapidamente organizavam fazendas com mão-de-obra de índios escravizados, escravos africanos, fugitivos... As fazendas do sertão baiano, sem limite exato de cumprimento, sem cerca e sem necessidade de comprovar posse, pertencia parte aos Garcia D'Ávilas da Casa da Torre e parte a Antônio de Guedes Brito da Casa da Ponte

No século seguinte a área foi abandonada pelos seus donos que preferiam viver próximo a costa. A partir daí a apropriação das terras se deu de diversas formas, até que chegou a república e apareceram os coronéis requerendo suas propriedades. O gado continuava sendo criado "a solta", eram marcados e havia acordos entre os proprietários de terra local que se adequavam a essa forma de manejo.

 

O "fundo de pasto", nome dado a forma de criar o gado solto, ainda é uma prática adotada no Raso da Catarina. As pequenas propriedades não tem pasto e água suficiente para o gado e as comunidades tradicionais, remanescentes dessa prática secular, tem nessa forma de cultura a sua sobrevivência econômica. 

 

No Plano de Manejo: Estação Ecológica Raso da Catarina do  Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, de 2008, é afirmado na página 96 que "entre os municípios da Estação Ecológica (Esec) , Santa Brígida, Jeremoabo, Macururé e Canudos têm os mais baixos índices da faixa de desenvolvimento humano médio para o Brasil, sendo que os dois primeiros tinham índices inferiores aos da Tanzânia". 

Em 2000 a Tanzânia, na África, foi considerado um dos países com os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo, com 0,467. 

Fonte: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD

O IDH é uma medida concebida pela Organização da Nações Unidas (ONU) com a intenção de avaliar o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida de uma determinada população. O critério utilizado é a saúde - vida longa e saudável, a renda - padrão de vida baseado no poder de compra e a educação - o acesso ao conhecimento.

Fazendo parte dessa população estão os vaqueiros.

A difícil encruzilhada entre a preservação ambiental e a cultura tradicional

Entre as atividades conflitantes com as premissas da Estação Ecológica está o pastoreio extensivo de bovinos, logo a atividade dos vaqueiros, uma cultura tradicional do Nordeste.

O Raso da Catarina é o único bioma desse gênero no mundo, além de ter em sua área animais com risco de extinção que é preciso preservar. Os vaqueiros trazem consigo uma cultura ancestral, o gado é a fonte da sua sobrevivência e já estavam nesse espaço muito antes de ser demarcado e virar área de preservação ambiental. 

 "Isso aqui é coisa de séculos. Arrepare, é do meu bisavô! E se brincar demais de trás...  Das vêis que demorava de pegar o bicho fugido, num era que ele tava era mais cheio. O gado fugido tava era mió que antes. Daí o vaqueiro foi entendendo e aprendendo a natureza da caatinga. De fugido o gado passou a ser solto." Fala dos vaqueiros exposta no livro de Rui Rezende.

Aliar as duas atividades é um desafio constante para todos que estão imersos no processo. As pesquisas e as políticas públicas para o fortalecimento do diálogo e manejo das atividades na área ainda são insuficientes.

Para conhecer melhor a realidade local do ponto de vista dos ambientalistas, os condutores e mediadores dos diálogos na região, contamos com Osmar Barreto Borges, Chefe Substituto da Unidade Estações Ecológicas Raso da Catarina do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Abaixo seguem as perguntas e respostas provenientes do contato.

Respondendo brevemente seus questionamentos:

 

Kithi - Como é realizado o diálogo com essas comunidades tradicionais?

Osmar B Borges - A relação com os vaqueiros e agricultores familiares do entorno da unidade de conservação é aberta e direta. Três membros do Conselho Consultivo da unidade representam as comunidades de pecuaristas, além de uma cadeira para o Sindicato Rural e duas para as comunidades indígenas. A ESEC já participou de reuniões com os vaqueiros nas comunidades rurais.

K - Existe alguma ação de educação ambiental sendo realizada junto aos vaqueiros?

OBB - Especificamente para os vaqueiros, não.

K - Os vaqueiros são os donos do gado, ou são trabalhadores?

OBB - Geralmente são proprietários dos rebanhos.

K - Qual é a situação de sobrevivência dos vaqueiros e de que forma a Esec colabora para uma mudança na atividade profissional? 

OBB - O perfil socioeconômico das famílias de pecuaristas, bem como a dimensão dos rebanhos que pastam na ESEC ainda não é bem conhecida. Estamos tentando contratar um estudo abrangente para obter estas informações. Os vaqueiros continuam soltando o gado no interior da ESEC. Os rebanhos são soltos na unidade de conservação em determinada época do ano e recolhidos em outras épocas, dependendo do regime de chuvas. Não é permitida a construção de currais e aguadas, a prática da caça nem o desmatamento da caatinga. Infelizmente não temos fôlego financeiro, estrutural nem de pessoal para estimular a mudança nas atividades produtivas, mas procuramos parcerias com outras entidades que possam contribuir neste quesito, sem muitas ações efetivas até o momento.

K - Existe investimento e ações para transformar esses vaqueiros, exímios conhecedores da área, em funcionários da Esec, por exemplo?

OBB - Não, nem há previsão legal para isto. Mas alguns vaqueiros já foram contratados como brigadistas para combate e prevenção a incêndios florestais na ESEC. É um contrato temporário de seis meses que é renovado anualmente no período das queimadas.

K - Como a fiscalização atua junto aos vaqueiros?

OBB - A relação é respeitosa, mas ilícitos ambientais não são tolerados. Não é permitida a construção de currais e aguadas, a prática de queimadas, a prática da caça nem o desmatamento da caatinga.

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